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Álbum do dia: "Lady Melody" - Audio Karate



O Audio Karate é um quarteto californiano formado pelos chicanos Arturo Barrios (voz/guitarra), Jason Camacho (guitarra), Justo Gonzalez (baixo) e Gabriel Camacho (bateria). "Lady Melody", lançado há 2 semanas, é seu segundo álbum de estúdio e sucede "Space Camp", de 2001.

Editado pelo selo Kung Fu Records e produzido por Bill Stevenson (Descendents/All), o CD traz uma música enfezada e com muita sensibilidade pop. Em meio a riffs de guitarra ferozes e bateria hiperativa, o Audio Karate se encarrega de mandar refrões altamente melódicos e que poderiam frequentar a programação das FMs. Uma receita musical que alguns definiriam como "power-pop", mas, para evitar erros de interpretação, também poderia explicada como uma mistura entre Helmet, Foo Fighters e Jawbreaker.

Referências sonoras à parte, o Audio Karate tem personalidade. Mesmo nas letras mais, digamos, "sentimentais", os caras não caem na baboseira emo - ou emocore - que contaminou várias bandas americanas e brasileiras nos últimos 2 ou 3 anos. Nada de choramingar por amores perdidos sob uma parede de guitarras. Além de ter um pouco de humor, o Audio Karate passa um sentimento de urgência em suas músicas e letras.

Art Barrios, o vocalista, acaba se destacando pela versatilidade e por saber a diferença entre cantar e gritar, coisa que muita gente hoje parece ter esquecido.

Se você está com saudade de pegar um lançamento que não soe derivativo ou retrô, arrisque-se atrás de "Lady Melody" e se esbalde com o rock'n'roll enfezado, melódico e "suculento" do Audio Karate.

SITE: www.audiokarate.com

 Escrito por Mr Eddy às 13h14
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Vídeo do dia: Eraserhead



Eraserhead
(Eraserhead/1977)
Direção: David Lynch • com: Jack Nance (Henry Spencer), Charlotte Stewart (Mary X), Allen Joseph (Mr. X), Jeanne Bates (Mrs. X), etc

Ao longo de quase 3 décadas, David Lynch criou seu próprio universo e desenvolveu uma forma bastante peculiar de contar histórias. Em seus filmes, a linha que separa sonho de realidade está sempre borrada, resultado em experiências sensoriais únicas no cinema contemporâneo.

Imagens, música e estranhos personagens são arranjados de um modo que permanecem com o espectador por muito tempo. E essas características marcam quase toda a filmografia de Lynch: de "Twin Peaks" a "Estrada Perdida" e "Cidade dos Sonhos". Mas esse estilo já podia ser detectado em seu longa de estréia, "Eraserhead", de 1977.

O diretor tinha apenas 26 anos de idade quando começou a trabalhar no projeto e demorou 5 anos para concluí-lo. O orçamento, de módicos 10 mil dólares, foi captado com empréstimos de parentes e amigos, já que o roteiro simplório não atraiu qualquer investidor. A perseverança foi recompensada com um filme que tornou-se "cult" e levou seu criador a dirigir, a convite de Mel Brooks, o aclamado "Homem Elefante".

"Eraserhead", que continua inédito no Brasil, tem atmosfera de pesadelo. Situado numa cidade industrial decadente, onde o barulho e vapor das máquinas é incessante, o filme é centrado na figura de Henry (Jack Nance), rapaz supostamente desempregado que vive num apartamento mal cuidado e se distrai assistindo (ou sonhando que assiste) a uma garota deformada que canta dentro de seu aquecedor.

Num jantar com a bizarra família de sua namorada - a mãe o assedia sexualmente, a avó é um vegetal largado na cozinha e o pai, um maníaco que não pára de falar e sorrir - Henry descobre que terá um filho, ainda que aquilo lhe pareça impossível. A namorada acaba indo morar em sua espelunca com o bebê...mutante.

A aparição do novo personagem deixa o filme ainda mais sinistro, já que o monstrinho incomoda e intriga o espectador como poucas vezes o cinema conseguiu fazer. Com um orçamento pífio como o de "Eraserhead", é difícil imaginar a concepção de efeitos especiais tão sofisticados. Boatos que o bebê seria, na verdade, o feto de um bezerro, nunca foram confirmados por Lynch, que se nega a falar do assunto em qualquer entrevista. Seja como for, as imagens e a presença do personagem têm um estranho poder.

"Eraserhead" ganhou reconhecimento com o tempo e o mestre Stanley Kubrick chegou a dizer que se tratava de um de seus filmes prediletos. É como se o então jovem cineasta tivesse juntado o surrealismo dos primeiros filmes de Luis Buñuel com o mundo pós-apocalíptico da literatura de ficção. Outras referências seriam o cinema orgânico de David Cronenberg, que na época ainda engatinhava, e os universos futuristas e decadentes de George Orwell e Aldous Huxley.

Mas vasculhar as fontes de inspiração de Lynch parecem tarefa impossível. Ele próprio, mais provavelmente, tornou-se modelo para outros cineastas e artistas audio-visuais.

Se você já viu e gostou de filmes como "Homem Elefante", "Veludo Azul", "A Estrada Perdida" e outros, tente assistir "Eraserhead" para entender como tudo começou. Esse clássico independente está disponível em VHS nos EUA - pode ser comprado pelo site da Amazon - e em DVD apenas na versão sul coreana.

Uma cópia novinha do DVD pode ser arrematada por menos de 10 dólares no site de leilões eBay.



Por onde andam...

-- O único ator de "Eraserhead" a ter uma carreira razoavelmente bem sucedida no cinema foi o protagonista Jack Nance (no filme, creditado como John Nance). Talvez por gratidão - afinal Jack esteve 5 anos disponível para trabalhar em "Eraserhead" - Lynch lhe concedeu papéis em praticamente todos os seus filmes até "Estrada Perdida", lançado em 1997.

Nance, que trabalhou também no badalado "Um Amor e Uma 45", morreu estupidamente em 96 após uma briga com dois homens num coffee shop. O ator faleceu vitimado por um coágulo no cérebro;

-- Charlotte Stewart (Mary X) continua no cinema e foi escalada por David Lynch para a série de TV "Twin Peaks" e sua adaptação para o cinema;

-- Jeanne Bates (Mrs. X) só voltaria a trabalhar com o diretor mais de 20 anos depois de "Eraserhead". Aos 83 anos de idade ela interpretou Irene em "Cidade dos Sonhos".

 Escrito por Mr Eddy às 13h15
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Vídeo do dia: Dr. Fantástico



Dr. Fantástico
(Dr. Strangelove/1964)
Direção: Stanley Kubrick • com: Peter Sellers (Capitão Mandrake/Presidente Muffley/Dr.Strangelove), George C. Scott (General Turgidson), Slim Pickens (Major Kong), Sterling Hayden (General Jack D. Ripper), etc

O mundo mudou bastante nas últimas 4 décadas, mas algumas questões conceituais sobre a segurança do planeta e as relações internacionais permanecem as mesmas. Talvez por isso, assistir a "Dr. Fantástico" hoje em dia dê a sensação de que espiamos pela fechadura do gabinete presidencial americano em algum momento antes da invasão no Iraque.

Na comédia de Stanley Kubrick, políticos e militares são mostrados de forma caricata, mas assustadoramente crível. Algumas trapalhadas do presidente Muffley, de seus generais de "confiança" e do premiê soviético, poderiam muito bem ser substituídas pela turma de Bush, Blair, Cheney e Rumsfeld. A diferença é que em 1964 o mundo ainda vivia nas trevas da Guerra Fria e na iminência de alguma das superpotências apertar o botão, mandando o planeta pelos ares.

Kubrick, que mostrou a crueldade da guerra em filmes como "Glória Feita de Sangue" e "Nascido Para Matar", transformou em comédia o livro "Red Alert", de Peter George, que narra o início acidental da temida guerra nuclear. Nada melhor que o humor negro para ressaltar o absurdo da guerra, a obsessão militarista e o despreparo de governantes.

No filme, o tresloucado general Jack D. Ripper (Sterling Hayden) dá ordem para um esquadrão de B-52 invadir o espaço aéreo soviético e bombardear o país com mísseis nucleares, apenas por suspeitar que os russos estivessem "fluoretando a água" dos EUA (teoria conspiratória que realmente rolou por lá nos anos 50!).

O presidente (Peter Sellers) ordena que a Força Aérea recolha os aviões, mas é informado, em detalhes técnicos e estratégicos, que, para isso, o general Ripper teria que revelar uma senha secreta. Começa aí uma luta contra o relógio para arrancar a informação do lunático general - sitiado numa base militar - ou então deter os aviões com auxílio das forças soviéticas.

À parte das atuações maravilhosas de Peter Sellers (que interpreta 3 personagens) e George C. Scott (general Turgidson), o charme de "Dr. Fantástico" é reduzir os grandes líderes mundiais à condição de gente comum. O general Turgidson, por exemplo, atende um embaraçoso telefonema da namorada durante uma reunião com o presidente. O bem intencionado capitão Lionel Mandrake (Peter Sellers) caça moedas no bolso para fazer uma ligação que pode parar a guerra nuclear. O presidente americano tem que jurar para o bêbado premiê russo que gosta de conversar com ele e não vai lhe telefonar apenas em casos de emergência.

E por aí vai...

O espaço aqui é muito reduzido para tratar desse clássico com alguma profundidade, mesmo porque "Dr. Fantástico" também merece ser reverenciado por seus aspectos técnicos, como a direção de arte primorosa, o roteiro excelente e algumas imagens memoráveis (a seqüência de abertura, o clipe com explosões atômicas sob a canção "We'll Meet Again", etc).

Na dúvida, faça uma visita à locadora mais próxima e alugue a versão em DVD, que traz um belíssimo making of e, claro, o filme em toda a sua magnitude. O único defeito é a tradução, que perdeu os trocadilhos originais nos nomes dos personagens.



Os efeitos de "Dr. Fantástico" no mundo real...

-- A mão "com vontade própria" do Dr. Fantástico não é uma possibilidade tão absurda quanto parece. Especialistas da Universidade de Aberdeen estudaram danos cerebrais que causam reações involuntárias nas mãos e batizaram o fenômeno, acredite se quiser, de "The Dr. Strangelove Syndrome" ou "A Síndrome do Dr. Fantástico"!

-- O presidente Reagan, quando foi empossado, pediu a assessores para conhecer a Sala de Guerra e descobriu, para sua frustração, que o lugar só existia mesmo no filme de Kubrick;

-- A C.I.A. interrogou o departamento de arte de "Dr. Fantástico" para saber como tinham conseguido recriar o então secreto interior do avião B-52. Os artistas confessaram que apenas imaginaram, depois de ver fotos do painel, que o resto do avião fosse daquele jeito...

-- A cena em que Lionel Madrake ordena ao coronel Bat Guano que atire numa máquina de refrigerantes para conseguir trocados e, assim, realizar uma ligação para o presidente, foi mostrada no Congresso americano para ilustrar a importância de facilitar a comunicação entre departamentos durante situações extremas.







 Escrito por Mr Eddy às 16h25
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